
Na primeira parte desta série, revelamos como o carpete foi marginalizado por décadas devido a uma combinação de interpretações equivocadas, métodos ineficazes de limpeza e ausência de regulamentação técnica. Mas esse cenário começou a mudar e o que antes era visto como um risco, hoje é cada vez mais compreendido como um ativo estratégico. Normas, certificações e guias técnicos passaram a reposicionar o carpete como um aliado da qualidade do ar interior (QAI), da saúde ocupacional e da eficiência predial.
O carpete como aliado da qualidade do ar: o que a ciência e os dados mostram
Estudos recentes e entidades técnicas reconhecidas internacionalmente passaram a comprovar que o problema nunca foi o carpete, mas a forma como ele vinha sendo tratado, instalado e mantido.
De acordo com o Carpet and Rug Institute (CRI), o carpete atua como um filtro passivo, retendo partículas em suspensão como poeira, alérgenos e contaminantes, reduzindo a circulação desses elementos no ar. Mas esse benefício só se concretiza quando os processos de manutenção seguem critérios técnicos, com equipamentos adequados, controle de umidade e frequência periódica programada.
Já a ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers), referência global em qualidade ambiental interna, reforça em seu Indoor Air Quality Guide que materiais como carpetes, quando especificados e mantidos corretamente, colaboram com a redução de partículas aerossolizadas, melhorando o desempenho dos sistemas HVAC e o conforto ambiental. A entidade destaca ainda a importância da integração entre materiais, ventilação mecânica e práticas de manutenção para garantir ambientes saudáveis.
Normas e certificações que mudaram o jogo.
A reabilitação do carpete se consolidou com a publicação de normas técnicas e certificações que passaram a estabelecer critérios claros para sua manutenção e desempenho, temos como exemplo:
O CRI 204 que é um padrão técnico criado pelo Carpet and Rug Institute (EUA), que estabelece critérios para a seleção de equipamentos e métodos de limpeza de carpetes, considerando a eficiência de remoção de sujidades, a preservação das fibras e o impacto à saúde ambiental.
Confira manual no CRI 204 Standard
O IICRC S100, norma da Institute of Inspection Cleaning and Restoration Certification, reconhecida globalmente, que define procedimentos baseados em ciência aplicada e microbiologia para a higienização de carpetes e têxteis. A IICRC também qualifica empresas e profissionais conforme sua aderência a esses padrões. Acesse a norma: IICRC
A ABNT NBR 17037: Norma brasileira que regula parâmetros de qualidade do ar interior (QAI) em ambientes climatizados artificialmente, estabelecendo indicadores mensuráveis e reconhecendo o papel das superfícies, incluindo carpetes, na retenção de partículas e controle da poluição interna. Ela reforça a necessidade de manutenção técnica adequada e uso de materiais com comprovação de desempenho. Adquira a norma no site da ABNT.
Guia Técnico ABRITAC-ABIT: Desenvolvido por um comitê técnico que reuniu instituições como MilliCare Brasil, ABRAFAC, GRUPAS, GBC Brasil, GAS e fabricantes como a Belgotex, o guia consolida as boas práticas de higienização de carpetes no país. Extraído e referenciado a partir do CRI 204 (Carpet and Rug Institute), traduz essas diretrizes internacionais em uma normativa nacional, conferindo peso técnico e relevância local. Além de recomendar o cumprimento das normas brasileiras, proíbe métodos obsoletos, como o Bonnet, e orienta a adoção de tecnologias certificadas e sustentáveis.
Vide link: Guia ABRITAC-ABIT – Resumo Técnico
O guia ASHRAE é uma referência internacional elaborada pela American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers, que reúne boas práticas, normas e recomendações para projetar, operar e manter sistemas de climatização, ventilação e qualidade do ar interior (QAI). Entre seus conteúdos, inclui normas específicas para a instalação, manutenção e higienização de carpetes, garantindo que esses elementos contribuam para ambientes internos mais saudáveis, confortáveis e eficientes. É uma fonte técnica reconhecida mundialmente para profissionais de facilities, engenharia e saúde ocupacional.
Baixe o Guia Asharae
Saúde ocupacional: o que diz o Caderno Saúde do Trabalhador (COVISA) – QUALIDADE DO AR INTERIOR (QAI)
O Caderno Saúde do Trabalhador, elaborado pela COVISA – Coordenação de Vigilância em Saúde de São Paulo, reconhece a qualidade do ar interior QAI e a higienização técnica dos ambientes climatizados como fatores estratégicos na prevenção de doenças ocupacionais. O documento reforça que superfícies têxteis, como carpetes, devem ser mantidas sob um plano de higienização regular e controlado, conforme parâmetros normativos e evidências científicas, a fim de evitar o acúmulo de microrganismos, fungos e partículas em suspensão.
Um aspecto importante é que o material não condena o uso de carpetes: pelo contrário, orienta sua manutenção adequada com base em critérios técnicos e sanitários. Para embasar suas recomendações sobre inspeção de sistemas de ar-condicionado e QAI, o Caderno utilizou o Guia ABRITAC-ABIT como referência técnica, demonstrando o alinhamento entre a regulação local e normas reconhecidas nacional e internacionalmente.
Acesse: COVISA – Caderno Saúde do Trabalhador
O retorno às pranchetas: o carpete reabilitado
Com todas essas evidências e regulamentações, o carpete começa a reconquistar espaço nos projetos arquitetônicos e nos planos de manutenção predial, mas agora, com um novo olhar. Arquitetos, engenheiros, médicos do trabalho e gestores de facilities reconhecem seu valor técnico, quando aliado as boas práticas:
- Filtragem passiva de partículas;
- Conforto térmico, reduzindo variações de temperatura;
- Desempenho acústico, contribuindo para ambientes mais silenciosos e produtivos;
- Redução de acidentes, por ser antiderrapante;
- Estética e bem-estar sensorial.
Segundo o estudo da World Green Building Council, escritórios com foco em QAI, conforto térmico e acústico apresentam até 58% menos faltas por doenças respiratórias, elevando produtividade e sustentabilidade operacional.
Veja no link:World GBC – Health and Productivity
Responsabilidade técnica e mudança cultural
Mesmo com todas essas mudanças, muitos profissionais e empresas ainda mantêm uma cultura de contratação focada apenas em preço ou estética. Soluções genéricas, como lavagens convencionais, ainda são oferecidas sem qualquer comprovação de eficácia microbiológica, sem certificações e sem alinhamento com as normas vigentes perpetuando os mitos do passado.
Como alerta a consultoria Marsh McLennan, 35% dos afastamentos no Brasil por causas ambientais têm origem em doenças respiratórias. O impacto financeiro é gigantesco, mas os danos à reputação, ao clima organizacional e ao ESG da empresa são ainda mais profundos.
Vide link: Marsh – Tendências em Saúde Corporativa
Por isso, a atuação técnica do gestor de facilities, do arquiteto e do engenheiro predial é cada vez mais estratégica: não basta contratar uma limpeza, é preciso exigir comprovação técnica, protocolos auditáveis e parceiros que orientem com base em ciência e normas reconhecidas.
E agora?
Agora que a ciência e as normas deixam claro que o carpete, quando bem mantido, é um aliado da qualidade do ar interior e da saúde ocupacional e não um vilão, surge um novo desafio: como transformar esse conhecimento em decisões estratégicas?
Não basta repetir métodos do passado. O mercado evoluiu, e com ele, os profissionais envolvidos precisam estar cada vez mais qualificados, atentos às evidências e exigentes quanto à sustentabilidade e eficácia dos serviços contratados.
Nesse novo cenário, a higienização a seco se destaca como alternativa segura, eficiente, além de ser respaldada pelas principais instituições técnicas e científicas. Essa mudança de paradigma está em curso e impulsiona líderes que não se satisfazem com soluções genéricas, mas buscam performance validada, impacto ambiental reduzido e governança técnica.
No Blog 3, vamos mostrar como identificar fornecedores que vão além da execução operacional, organizações alinhadas a práticas ESG, comprometidas com normas nacionais e internacionais, e capazes de transformar essa consciência de que o carpete é um aliado em re