
Na FS EDUCA entendemos que a Gestão de Facilities precisa unir conhecimento técnico, inovação e compromisso com a sustentabilidade. Por isso, atentos ao crescimento da exigência técnica no setor e à busca por soluções mais conscientes e alinhadas às novas demandas dos gestores de Facilities, identificamos a necessidade de abordar temas ainda cercados por mitos e desinformação.
Um desses temas é o carpete, frequentemente marginalizado em projetos corporativos, apesar dos avanços científicos e normativos que reposicionaram esse material como um ativo estratégico para a saúde ocupacional e a qualidade do ar interior.
A série que se inicia foi desenvolvida com base em estudos, normas e experiências de mercado, contando também com referências e conteúdos técnicos compartilhados por empresas que atuam com responsabilidade no setor, como a MilliCare Brasil especializada em higienização a seco de carpetes e superfícies têxteis.
Nasce assim uma série com quatro artigos técnicos, voltada a profissionais que desejam repensar suas escolhas com embasamento, responsabilidade e visão de futuro.
Neste primeiro artigo, revisitamos a trajetória do carpete: do preconceito à reabilitação técnica. Um convite para refletir sobre como conceitos ultrapassados ainda influenciam decisões importantes e por que chegou a hora de atualizar esse olhar à luz da ciência, da sustentabilidade e da saúde nos espaços corporativos.
Quando o carpete virou vilão
Durante décadas, o carpete foi progressivamente excluído de especificações arquitetônicas, projetos corporativos e ambientes institucionais. Mas por quê?
A resposta está em uma combinação de analogias equivocadas, falta de regulamentações técnicas, interpretações apressadas e estudos mal conduzidos, que associaram o carpete, sem as devidas distinções entre materiais, tramas, composições e métodos de manutenção.
Estudos isolados e sem controle adequado de variáveis foram amplamente divulgados pela mídia, fomentando o senso comum de que “carpete causa doença”. Paralelamente, problemas de umidade, mofo e falta de ventilação adequada em edifícios também foram injustamente atribuídos à presença de carpetes, quando, na verdade, tratava-se de conceitos equivocados nos sistemas de climatização ou manutenção inadequada deste ativo.
Como o carpete foi retirado dos projetos e por quê
1. Crises sanitárias e doenças respiratórias
Em nível internacional, aumento de doenças respiratórias como asma, rinite alérgica e bronquite fez com que o carpete ficasse associado, equivocadamente, a mofo, bolor e proliferação de ácaros.
Estudos do National Institutes of Health (NIH) mostram que ambientes com alta umidade e má ventilação podem de fato favorecer essas condições, mas não por causa do carpete em si, mas sim pela falta de controle do ambiente.
2. Clima tropical e a umidade brasileira
No Brasil, o clima quente e úmido acentuou essas preocupações. A falta de renovação de ar e de sistemas de climatização central fez com que o carpete fosse considerado um risco potencial o que, entre outros fatores, contribuiu para sua rejeição nos projetos arquitetônicos.
3. Ausência de normas e capacitação técnica
Ao contrário de países que já dispunham de normas como o CRI 204, Guias GBC, LEED, ISO 14644-3 entre outras, o Brasil carecia de protocolos claros de manutenção, treinamento de mão de obra especializada, conhecimento técnico de normas e guias e fiscalização de métodos aplicados.
O método Bonnet, por exemplo, amplamente difundido no mundo por décadas, tornou-se símbolo dessa falha técnica: um processo úmido, que espalha a sujeira e danifica as fibras, aumentado a umidade que resultava no proliferação de ácaros e fungos além de mal odor.
A somatória desses fatores, contribuiu para uma retirada gradual do carpete de projetos públicos e privados, incluindo edifícios corporativos, hospitais e até residências.
Durante anos, o carpete foi descartado por padrão, sem avaliação técnica individualizada ou consideração de novas tecnologias de higienização dos ativos, controle e normas de Qualidade do ar interior (QAI).
Sem critérios técnicos claros, gestores de facilities, arquitetos e até mesmo órgãos reguladores passaram a adotar a simples exclusão do carpete, numa lógica simplista que ignorava fatores como manutenção inadequada, ausência de barreiras de contenção e até falhas na operação dos sistemas HVAC.
Mesmo marginalizado, o carpete resistiu
Apesar de décadas de desinformação, o carpete resistiu, graças aos seus benefícios comprovados:
- Isolamento acústico, promovendo ambientes mais silenciosos e confortáveis para concentração e produtividade
- Conforto térmico, reduzindo a troca de calor com o ambiente
- Redução de escorregamentos, promovendo segurança
- Filtragem passiva de partículas do ar, que evita a recirculação de poeira e alérgenos (desde que bem mantido)
- Valor estético e identidade visual, com opções de design avançado
A virada de consciência: o problema nunca foi o carpete, uma mudança de paradigma em curso
Com o tempo, ficou evidente que o problema não era o carpete, mas sim, a forma como ele vinha sendo tratado, instalado e mantido. A falta de protocolos técnicos e a escolha por métodos baratos, improvisados ou visualmente satisfatórios, mas ineficazes, comprometeram sua reputação.
Instituições como a ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers), o Green Building Council (GBC) e o Carpet and Rug Institute (CRI), IICRC (Institute of Inspection Cleaning and Restoration Certification) entre outras, passaram a desenvolver diretrizes, pesquisas e publicações técnicas que buscavam compreender a fundo essa problemática. O objetivo era claro: corrigir as práticas equivocadas do passado e estabelecer parâmetros sustentáveis, eficazes e alinhados à saúde ocupacional.
No Brasil, essa virada de consciência também vem ganhando força, impulsionada por uma crescente demanda por regulamentações técnicas e práticas baseadas em evidências científicas. Um marco importante nesse processo foi a publicação da norma ABNT NBR 17037:2022, (qualidade do ar interior em ambientes não residenciais climatizados artificialmente) uma norma brasileira que estabelece padrões para inclusão de parâmetros objetivos para avaliação, controle e melhoria da Qualidade do Ar Interior (QAI). Essa norma reconhece o papel de superfícies rígidas ou porosas como os carpetes na gestão da QAI, desde que sejam adotadas técnicas adequadas de manutenção e higienização.
Como parte desse movimento de normatização técnica, foi lançado o Guia ABRITAC-ABIT, um documento elaborado por um comitê técnico formado por especialistas e representantes de instituições relevantes como ABRAFAC, GAS, GRUPAS, GBC Brasil, Belgotex, PNQAI, além de fabricantes e empresas do setor de carpetes e têxteis.
A coordenação do conteúdo ficou a cargo de Paulo Jubilut, CEO da MilliCare Brasil, cuja experiência técnica contribuiu para alinhar o material às necessidades reais do mercado. O guia endossa a adoção de normas brasileiras vigentes, como a ABNT NBR 17037, ao mesmo tempo em que incorpora práticas recomendadas por entidades internacionais, como ASHRAE, CRI e IICRC. Sua missão é clara: orientar profissionais e organizações na escolha de métodos eficazes, promover capacitação técnica e oferecer uma base sólida para a gestão responsável de carpetes em ambientes corporativos, institucionais e hospitalares.
Estamos diante de uma virada de consciência. Um novo olhar que compreende que o problema nunca esteve no material em si, mas nas práticas e abordagens adotadas ao longo do tempo. Esses avanços consolidam uma mudança concreta de mentalidade no país, que agora passa a ser reconhecido como um ativo estratégico para a promoção da saúde ocupacional e do bem-estar.
No próximo artigo, vamos aprofundar os estudos científicos, certificações e normas, como a CRI 204, IICRC, a ABNT NBR 17037, Guia ABRITAC, Caderno Saúde do Trabalhador (apoio da COVISA), que vêm revolucionando a forma como o setor de Facilities e engenharia predial enxerga o carpete.
Acompanhe o blog e descubra como esse ativo, tantas vezes subestimado, pode se tornar um pilar de saúde ocupacional, sustentabilidade e eficiência na gestão predial.