No Dia da Terra, muitas empresas ainda tratam sustentabilidade como discurso, meta corporativa ou, no melhor dos casos, se ancorando apenas nas certificações.
Mas a realidade é bem mais dura, e mais simples:
“A sustentabilidade pode de fato acontecer (ou falhar) durante a operação”.
E é justamente aí que entra o papel do FM.
Se o FM toma decisões baseadas em hábito, reação ou custo imediato, o ESG nunca se materializa. Se decide com dados, estratégia e visão de ciclo de vida, o impacto é direto, no consumo, no carbono, na saúde e no resultado financeiro principalmente.
A diferença não está na intenção, mas nas escolhas do dia a dia.
O material que apresentei recentemente, em uma palestra no Facilities Summit organiza exatamente isso: o que separa operações comuns de operações verdadeiramente sustentáveis.
A seguir, traduzo essas estratégias em um guia direto para quem toma decisão.
Água: o problema não é o consumo, é a falta de visibilidade
A maioria das operações ainda mede água pela conta final.
Isso não é gestão, é contabilidade tardia.
Práticas como:
- agir apenas quando o custo aumenta;
- ignorar reuso;
- trocar equipamentos sem critério;
ainda são extremamente comuns, e estruturalmente ineficientes.
A virada acontece quando o FM deixa de reagir e passa a enxergar o sistema em que opera utilizando:
- Monitoramento setorizado + IoT;
- Detecção de vazamentos em tempo real;
- Estratégias de reuso (torres, irrigação, água cinza);
Energia: automação sem estratégia é desperdício sofisticado
Existe um mito perigoso no mercado:
“instalamos automação, então somos eficientes”.
Não necessariamente.
Operar sistemas “no automático” e manter HVAC em carga máxima constante ainda são práticas recorrentes.
Eficiência energética real exige três camadas:
- Dados (BMS/EMS em tempo real);
- Ajuste contínuo (comissionamento e retrocomissionamento);
- Inteligência operacional (uso baseado em ocupação);
Somado a:
- Retrofit de iluminação com estratégia (não só troca);
- Energia renovável com análise de viabilidade;
- Mercado livre como decisão econômica, não apenas ambiental;
Qualidade do ar: o risco invisível que ainda é ignorado
Poucos temas são tão negligenciados, e tão críticos.
O que eu gosto de deixar muito claro: ainda se assume que qualidade do ar “não é um problema” ou se trabalha apenas com manutenção corretiva.
Isso não é mais aceitável.
A gestão moderna exige:
- Monitoramento contínuo (CO₂, PM2.5, VOCs, CO);
- PMOC rigoroso;
- Troca adequada de filtros (MERV correto);
- Ventilação ajustada à ocupação real;
O maior ativo de uma empresa são os funcionários, e garantir uma qualidade mínima do ar é essencial.
Resíduos: sustentabilidade não se trata apenas de ter lixeira para recicláveis, temos que rastrear destino.
Ter coleta seletiva visualmente organizada não significa nada.
Se não há rastreabilidade e transparência, parceiros qualificados, medição de desvio de aterro… então não há gestão.
O que mais encontramos hoje em dia nas empresas, que são erros clássicos são “lixeiras decorativas” e ausência de indicadores.
A principal mudança exige cadeia estruturada de reciclagem, compostagem ou destinação adequada, educação contínua dos usuários e transparência em relatórios de sustentabilidade e ESG!
Iluminação: eficiência energética sem olhar humano é basicamente incompleta
Reduzir a potência instalada (W/m²) ajuda, mas não resolve tudo.
Projetos que ignoram conforto visual, ritmo circadiano e acesso à luz natural podem até economizar energia, mas pioram a experiência e o desempenho humano.
Entendo que o principal erro é tratar iluminação apenas como consumo.
A abordagem correta integra sensores de luz natural nas áreas de fachada, projeto luminotécnico qualificado e estratégias centradas nas necessidades dos usuários.
Em muitos casos, os projetos de iluminação deixam de considerar adequadamente as necessidades de pessoas idosas ou com deficiência visual, um aspecto essencial que, com frequência, passa despercebido no processo de concepção e ocupação dos espaços.
Gestão: o maior erro do FM é operar isolado
Aqui está o ponto mais crítico, e mais negligenciado.
É claramente perceptível que, tratar FM como operação isolada, decidir por percepção e acreditar que tecnologia resolve tudo, são erros estruturais.
O novo papel do Facilities nesse novo cenário é outro:
- Integrar com ESG corporativo;
- Trabalhar com KPIs claros;
- Usar análise preditiva;
- Treinar continuamente equipes;
- Alinhar operação com certificações (LEED, WELL, Fitwel).
ESG sem FM é estratégia. FM sem ESG é operação. Nenhum dos dois, sozinho, resolve as dores do mercado.
Conclusão: sustentabilidade é decisão operacional
No Dia da Terra, não faltam compromissos públicos. O que ainda falta são decisões operacionais consistentes. Sustentabilidade em Facilities não depende de grandes discursos ou tecnologias disruptivas.
Depende de algo mais difícil:
Disciplina;
Dados;
Consistência.
E, principalmente, da coragem de abandonar práticas antigas que ainda parecem “normais e eficientes”.
Porque no fim, a pergunta não é: “O prédio é sustentável?”
Mas sim: “As decisões diárias que operam esse prédio são sustentáveis?”
Fica a reflexão.
Leandro Silva
Consultor de Sustentabilidade LEED AP BD+C, WELL AP, Edge Expert, Fitwel Ambassador and GBC Life Professional